O Historiador
Veio para ressuscitar o tempo e escalpelar os mortos,
as condecorações, as liturgias, as espadas,
o espectro das fazendas submergidas,
o muro de pedra entre membros da família,
o ardido queixume das solteironas,
os negócios de trapaça, as ilusões jamais confirmadas nem desfeitas.
Veio para contar
o que não faz jus a ser glorificado
e se deposita, grânulo,
no poço vazio da memória.
É importuno
sabe-se importuno e insiste,
rancoroso, fiel.
Veio para ressuscitar o tempo e escalpelar os mortos,
as condecorações, as liturgias, as espadas,
o espectro das fazendas submergidas,
o muro de pedra entre membros da família,
o ardido queixume das solteironas,
os negócios de trapaça, as ilusões jamais confirmadas nem desfeitas.
Veio para contar
o que não faz jus a ser glorificado
e se deposita, grânulo,
no poço vazio da memória.
É importuno
sabe-se importuno e insiste,
rancoroso, fiel.
Carlos Drummond de Andrade.
Imagem: Clio, a Musa da História - Pintura de Pierre Mignard, 1689.
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